Como abrir um consultório particular nos EUA em 2026: o passo a passo
Entidade PLLC ou PC, NPI tipo 1 e 2, EIN, malpractice, sala física ou telemedicina, software e políticas HIPAA, com tabela realista de custos iniciais.
August 18, 2026 · 8 min de leitura
Abrir um consultório particular é o caminho mais simples que já existiu para atender por conta própria nos Estados Unidos: sem contrato com seguradora, sem credenciamento de seis meses, sem setor de faturamento antes do primeiro paciente. Para o médico, dentista ou terapeuta brasileiro que quer atender a comunidade na Flórida ou em Massachusetts, o modelo ainda combina com o mercado: os estudos situam em torno de 20% a parcela de brasileiros nos EUA sem cobertura, e muitos dos que têm plano preferem um preço claro a uma franquia imprevisível. E quem trabalhou com convênio no Brasil vai reconhecer a sensação de liberdade: aqui, particular de verdade significa zero glosa.
Continua sendo um negócio de saúde licenciado num país regulado, então existe uma sequência, e fazer fora de ordem custa semanas. Esta é a sequência que nós mesmos seguiríamos em 2026, com números reais e faixas honestas onde o custo varia por estado. Aviso padrão em cada item: as regras mudam por estado, confirme com o conselho e com um advogado ou contador local.
Passo 1: escolher e constituir a entidade
Você vai atuar através de uma entidade legal, por separação de responsabilidade e porque a maioria dos estados exige dos profissionais licenciados uma entidade profissional: uma PLLC (professional limited liability company) ou uma PC (professional corporation). Em alguns estados a escolha não é sua:
- Califórnia não permite PLLC. Médicos e a maioria dos clínicos licenciados constituem uma Professional Corporation. Reserve os $100 do registro mais os $800 anuais de franchise tax que toda entidade californiana paga, com ou sem receita.
- Flórida permite PLLC, com taxas em torno de $125-160. No Texas a taxa fica perto de $300.
- Massachusetts trabalha com professional corporations para várias profissões de saúde; as taxas e exigências mudam por categoria, confirme com o conselho da sua profissão.
- Nova York permite PLLC mas soma uma exigência de publicação que pode custar de algumas centenas a mais de mil dólares conforme o condado.
Verifique também a doutrina de corporate practice of medicine do seu estado: em muitos, só um médico licenciado pode ser dono de uma prática médica, e isso importa no momento em que aparece um cônjuge ou um sócio investidor. Uma hora com um advogado de saúde, normalmente $300-500, é o dinheiro mais bem gasto do projeto inteiro. E um esclarecimento para quem chega de fora: não é preciso ser cidadão para abrir a entidade, mas é preciso licença profissional válida no estado onde atende. Diploma brasileiro sem licença americana não atende pacientes, em nenhum modelo.
A escolha tributária (S-corp ou não) é conversa para o contador quando der para projetar receita; não muda nada para abrir.
Passo 2: o EIN, grátis e imediato
O Employer Identification Number é sua identificação fiscal federal, um primo do CNPJ. Pede-se no site do IRS depois que a entidade existe: grátis, online, e normalmente o número sai em minutos. Quem cobrar para "tirar seu EIN" está vendendo um formulário que você mesmo preenche. Você precisa dele para a conta bancária, a folha de pagamento e, muito relevante aqui, para os superbills.
Passo 3: NPI tipo 1 e tipo 2, também grátis
O National Provider Identifier tem duas variantes e um consultório particular normalmente precisa das duas:
- Tipo 1 identifica você, o profissional individual. Se você já trabalhou licenciado nos EUA, provavelmente já tem; ele acompanha você para sempre.
- Tipo 2 identifica a organização, sua nova entidade.
Os dois são gratuitos no NPPES e costumam sair em 1 a 10 dias. "Mas se eu não faturo seguro, preciso de NPI?" Precisa, por três razões práticas: os superbills dos seus pacientes exigem o número ou o pedido de reembolso é rejeitado, os sistemas de receita eletrônica e laboratório pedem, e as farmácias usam para identificar você. Não custa nada e leva vinte minutos; não existe cenário em que pular isso compense. Temos um guia completo do superbill e do reembolso, porque o superbill é a resposta do modelo particular à pergunta "vocês aceitam meu seguro?".
Passo 4: licença, DEA e alvarás locais
- Sua licença profissional estadual precisa estar ativa no estado onde o paciente está, e esse detalhe governa também a telemedicina: atender um paciente sentado em outro estado exige, em geral, licença lá. O Interstate Medical Licensure Compact acelera a licença multiestado para médicos; o PSYPACT faz algo parecido para psicólogos.
- Registro na DEA só se for prescrever substâncias controladas: $888 por três anos.
- Alvará de funcionamento local e, em algumas cidades, licença de ocupação da sala. Normalmente menos de $200.
- Se usar nome fantasia ("Clínica Boa Saúde" em vez do nome legal da entidade), registre o DBA; na Califórnia, médicos precisam do fictitious name permit do conselho.
Passo 5: malpractice e as outras apólices
O seguro de malpractice é precificado por especialidade, estado e histórico. Faixas realistas: terapeutas e counselors muitas vezes $400-1.500 por ano, nurse practitioners comumente $1.500-4.000, médicos de atenção primária comumente $4.000-12.000, especialidades com procedimentos acima disso. Duas perguntas para o corretor: claims-made ou occurrence (claims-made é mais barata hoje mas exige cobertura de cauda na saída), e se cobre telemedicina entre estados. Some cyber (em torno de $500-2.000 por ano) e responsabilidade geral da sala (em torno de $400-1.000). A camada legal completa, HIPAA, consentimento TCPA e o Good Faith Estimate obrigatório para pacientes self-pay desde 2022, é assunto próprio: detalhamos nos requisitos legais do consultório particular.
Passo 6: a pergunta da sala, física ou telemedicina primeiro
A maior bifurcação de custo do plano inteiro. Rode os dois cenários antes de assinar contrato de aluguel:
| Item | Telemedicina primeiro (solo) | Consultório físico (solo) |
|---|---|---|
| Espaço | $0, ou $150-400/mês por salas por hora | Sublocar uma sala $500-1.500/mês, ou aluguel completo $2.000-5.000 ou mais |
| Reforma e mobília | $0-500 | $3.000-20.000 conforme o estado do imóvel e a especialidade |
| Depósito e primeiros meses | $0 | Comumente 2-3 meses de aluguel adiantados |
| Equipamento | Computador, câmera, iluminação: $500-1.500 | Maca, instrumental, insumos: $2.000-15.000 ou mais |
| Pacientes para empatar (a $150/consulta em média) | Muitas vezes 15-25 consultas/mês | Muitas vezes 40-80 consultas/mês |
Um padrão que funciona bem entre consultórios brasileiros novos: começar com sala por hora ou sublocada dois dias por semana, provar a demanda, e só então assumir um aluguel com números reais na mão. O proprietário negocia melhor com um consultório que já fatura.
Passo 7: HIPAA antes do primeiro paciente, não depois
Você precisa ter, por escrito, antes da primeira consulta: uma avaliação de riscos de segurança (a ferramenta SRA gratuita do HHS leva uma tarde), políticas de privacidade e de vazamento, um Notice of Privacy Practices para os pacientes, treinamento se tiver equipe, e um BAA assinado com cada fornecedor que toque dados de pacientes. Custa quase nada e é a diferença entre um incidente e uma multa. As multas são escalonadas e passam de $50.000 por infração no nível mais alto, então "depois a gente resolve" não é plano.
Passo 8: o software, e o fluxo do GFE
Um consultório particular precisa de muito menos software que uma clínica de seguros, e isso vale dinheiro todo mês. A lista de trabalho:
- Gestão do consultório e prontuário com agenda, evolução, portal do paciente, telemedicina, lembretes e superbills. Como você pula o software de claims por completo, essa camada deveria custar dezenas de dólares, não centenas; compare o que cada plano inclui na página de preços de qualquer fornecedor e confirme que o BAA vem incluído em todos os níveis, não vendido à parte. As funções para conferir são agenda, prontuário, recebimentos, lembretes e o PDF do superbill, com o software e as comunicações no idioma de cada paciente se você atende em português.
- Recebimentos: um processador em torno de 2,6-2,9% + $0,30 por transação no cartão. Configure antes de abrir; cobrar na reserva é também a sua política de faltas.
- Um modelo de Good Faith Estimate. Obrigatório para pacientes self-pay desde janeiro de 2022. Com preços fixos publicados leva minutos por paciente, e se a conta final passar do orçamento em $400 ou mais o paciente pode disputar pela via federal, então crie o hábito desde o primeiro dia.
- Receita eletrônica, só se você prescreve num estado com mandato (Califórnia, Nova York, Flórida e outros): uma ferramenta de e-Rx à parte custa uns $30-80 por prescritor ao mês.
- O que você não precisa: clearinghouse, verificação de elegibilidade, gestão de glosas, serviços de credenciamento. Essa indústria inteira existe para faturar seguros, e você acabou de sair dela.
As práticas de dados importam mais que os logotipos: criptografia, trilha de auditoria, exportação dos seus dados sem resgate. Faça a cada fornecedor as perguntas da nossa página de segurança e guarde as respostas por escrito.
O orçamento inicial realista
Totais conservadores para um consultório individual, sem contar suas despesas pessoais durante a rampa:
| Linha | Telemedicina primeiro | Com consultório físico |
|---|---|---|
| Entidade, registros, DBA, alvarás locais | $300-1.200 | $300-1.200 |
| Horas de advogado + contador | $500-1.500 | $500-1.500 |
| EIN + NPI 1 e 2 | $0 | $0 |
| Malpractice + cyber + responsabilidade geral (ano 1) | $900-5.000 | $1.300-13.000 |
| Sala, depósito, reforma | $0-1.000 | $8.000-40.000 |
| Equipamento | $500-1.500 | $2.000-15.000 |
| Software (ano 1: gestão, recebimentos, telefone) | $800-2.000 | $800-2.000 |
| Site, Google Business Profile, marketing inicial | $500-3.000 | $1.000-5.000 |
| Total | $3.500-15.000 | $14.000-78.000 |
A faixa é honesta: um consultório de terapia por telemedicina abre de verdade com poucos milhares de dólares, e um consultório com procedimentos numa cidade grande custa de verdade dezenas de milhares. O que os dois têm em comum: nada desse dinheiro vai para infraestrutura de seguros.
A ordem das operações, comprimida
- Consulta com advogado de saúde, escolha e constituição da entidade
- EIN, conta bancária
- NPI tipo 2 (e tipo 1 se ainda não tiver)
- Malpractice contratado, demais apólices cotadas
- Verificação de licenças, DEA se aplicável, alvarás locais
- Decisão da sala, aluguel ou estrutura de telemedicina
- Papelada HIPAA, BAAs, políticas
- Software configurado: agenda, preços, modelo de GFE, campos do superbill (NPI, EIN, sua lista de CPT)
- Recebimentos ativos, teste você mesmo uma reserva do início ao fim
- Google Business Profile, site, primeira agenda publicada, em inglês e em português
A maioria dos consultórios individuais que segue esta ordem está atendendo em 6 a 10 semanas, com a papelada da entidade e a subscrição do malpractice como os itens mais lentos. Comece por esses dois e o resto cabe nos intervalos. Se o seu público é a comunidade brasileira, temos uma página específica para clínicas brasileiras com o detalhe do software bilíngue.
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